O XADREZ NAS PRAÇAS



Por Herlon Carlos da S. Assunção
Advogado e Enxadrista



           Haverá ainda espaço para o Xadrez nas praças públicas?
           Esta é uma questão à qual pouco se dá relevância atualmente.
           Minha indagação se pauta ainda no que vejo: as práticas de outros entretenimentos lúdicos vão sendo, com o passar das gerações, relegadas ao esquecimento...
          Quem começou a disputar partidas amistosas num banquinho de praça (ou, se não começou, pelo menos frequentou esses logradouros) sabe do que estou falando.
          Caminho por alguns logradouros, e constato, entristecido, que o cenário se modificou. A especulação urbana, o grande número de vendedores, a concorrência frente ao carteado ("... esta mesa não é para Xadrez, é do pessoal das cartas!"), a insegurança – tudo conspira contra o Xadrez.
          Historicamente, alguns dos maiores jogadores iniciaram suas atividades em praças públicas, ou pelo menos se distraíam nelas. Alekhine se dirigia também às praças; igualmente, Tahl gostava de se fazer presente junto ao povo. Nem todos podem ser praticantes de renome, sabemos. Mas o detalhe é que a massa dos amadores também se dirigia aos espaços públicos, "para jogar uma partidinha"...
          Na ex-União Soviética, o impressionante desenvolvimento do Xadrez recebeu a contribuição da atividade nas praças. Nos Estados Unidos da América, temos o exemplo do Central Park de Nova York. Não é muito diferente nos outros grandes centros do nosso jogo.
          Há um adjetivo próprio ligado ao substantivo praça (praceiro). Este vocábulo tomou, no âmbito enxadrístico, conotação pejorativa, isto é, o jogador de praça, dedicado ao truque, ao chiste, nem sempre interessado no caráter científico do jogo, querendo ganhar a partida a qualquer custo. Exagerado, este entendimento.
           Mas o que terão a ver – você pode perguntar - a bolinha de gude, a amarelinha, pipa, pião, damas - por exemplo - com... Xadrez?
           A princípio, nada. Entretanto, estudos sócio-antropológicos revelam, dentre outras conclusões, mudança de enfoque neste tópico de integração dos componentes das novas gerações.
           Sim. Se, antes, a tônica era a reunião de pessoas, hoje, vemos o império do individualismo, a geração do orkut, you tube, twitter, - e por aí vai. Poucas crianças - e mesmo adolescentes – verdadeiramente brincam, congraçam, entre si. Paradoxo que se demonstra assim: milhões de pessoas conectadas, mas ao mesmo tempo, sozinhas.
           Ao Xadrez aplica-se algo deste paradoxo, mesmo tendo o jogo, sempre, assumido um aspecto mais individualista.
           A praça era lugar para experimentos, descobertas, inovações. Trocas de ideias e experiências com os outros.
           Paulatinamente, novas tecnologias substituíram a busca empírica, "selvagem", pelo conhecimento dos mistérios do Maior dos Jogos.
           Nossas urbes ainda contam com um razoável número de praças públicas – nem sempre cuidadas como seria de se esperar.
Daí a vermos atividades salutares, vai boa distância.
A Praça da Cruz Vermelha deixou de ser uma referência na prática do nosso jogo. Assim também o Largo do Machado. A região da Leopoldina parece ter sofrido um esvaziamento. Os exemplos se multiplicam, negativamente,e eu espero que o quadro se modifique. Minhas notícias mais próximas de praças que ainda mantêm certa frequência de enxadristas são: Praças do Valqueire e Saiqui, em Vila Valqueire (às quais nós, da AXXM, costumamos ir); o Largo do Anil; e o Calçadão de Bangu. Vi uma movimentação na Praça do Patriarca, em Madureira (ao lado da sua bela quadra "poliesportiva").
           Não me esqueço das boas iniciativas que vemos, aqui e alhures, da prática do Jogo dos Reis. Com efeito, há os denominados "Projetos de Xadrez nas Praças", "Xadrez nas Escolas" etc. Os nomes variam, não sendo de maior importância atermo-nos a eles. Mas esta saudável política ainda não atinge, a meu ver, o ponto crucial da questão, qual seja: verdadeiramente popularizar o jogo. Não espero – fique isto bem claro – que essas ações recebam, sozinhas, a incumbência de alavancar o desenvolvimento do Xadrez.
           Não é justo imputar-lhes tal ônus.
           Dito de outra forma: o caráter empresarial e /ou curricular da prática do Nobre Jogo não é incompatível com sua forma – digamos assim – mais "amadora".
           Compartilho com vocês estas ponderações.