Por Herlon Carlos da S. Assunção Advogado e Enxadrista
O primeiro jogo de xadrez de minha vida foi presente de meu Pai.
Conservo-o até hoje comigo. Graças a Deus.
É um conjunto simples, como costuma ser o primeiro da maioria de nós.
Constitui-se de uma caixa de madeira dobrável, que é o próprio tabuleiro,
guarnecendo as peças, também de madeira.
Não havia, então, todas as facilidades de hoje. Reparem que falo de um lapso
temporal de apenas 15 anos passados. Como o cabedal de informações avolumou-se, não é verdade? Bem, eu não sou tão vivido assim, se vocês
imaginam-me já um veterano. Tampouco sou um saudosista, mas estas reminiscências, de fato, me acompanham.
Foi neste primeiro material que, jogando intuitivamente, procurava avançar
o Peão de e5 à quinta casa, contra o que eu nem desconfiava se chamar Defesa Francesa (e o adversário nem precisava jogar d5...).
Gostava de atacar com os Cavalos e com as Torres... Enfrentava as diversas tentativas dos meus contrários em me aplicar (ainda)
o "Mate Pastor". E digo-lhes uma coisa: como era divertido vê-los recuar (após o ataque do meu Cavalo em f6) com aquela Dama assanhada,
para a casa de origem, ou f3, entorpecendo as próprias peças, e observar o "Bispo bobo" em c4... Aborrecia-me com a demora dos
adversários em jogar (não por coincidência, acho, quanto piores na posição, mais eles se demoravam...). O relógio, este só viria
a conhecer depois.
Também foi do Meu Pai o meu primeiro livro (Xadrez Básico, de
Orfeu Gilberto D'Agostini). Eu tinha uma edição mais antiga, só que não era minha, não me lembro de como chegou até mim. Então,
ele foi ao Centro, e o comprou.
Partidas Selecionadas de Xadrez, de V.V. Smyslov, somente mais tarde
ainda chegaria às minhas mãos. E me lembro muito bem: comprei-o quando estudante do 2º grau, no Colégio Pentágono, de Vila Valqueire,
com um dinheirinho também fruto do meu Pai, por algum serviço que eu fizera.
Não sabia a notação descritiva (ainda em voga na época).
Era uma tortura, portanto, tentar reproduzir as partidas. Eu guardei recortes de jornais, com partidas do match Karpov x Kasparov,
uma antiga do Milos na Olimpíada de Tessalônica, creio, mas sei que se tratava de uma Inglesa etc.
Na difícil fase da infância/adolescência, o Sr. Antonio da Silva Assunção,
meu querido Pai, constituiu-se em guardião dos meus sonhos.
Meu pai nunca desejou aprender a jogar. Tentei ensinar-lhe os movimentos,
mas não demonstrou maior interesse. Não importa. Mesmo assim, quem sabe algum dia jogará?
Oxalá outros pais façam, por seus filhos, o que fez o meu.